Acredito que poucas escolhas alimentares geram tanta dúvida quanto esta: açúcar ou adoçante? A pergunta ficou ainda mais comum com o aumento mundial da obesidade e com a tentativa, cada vez mais frequente, de reduzir calorias sem abrir mão do sabor doce, sobretudo nas bebidas. Café, chá, refrigerantes, águas saborizadas. Tudo isso entrou no centro da conversa, pois muita gente trata todos os adoçantes como se fossem iguais e imagina que o açúcar age sempre da mesma forma em qualquer pessoa. Não é assim. Diferentes substâncias doces podem ativar corpo e cérebro de modos distintos.
Durante anos, alguns estudos sugeriram que adoçantes artificiais poderiam aumentar a vontade de comer doces depois, como se o cérebro “esperasse” energia e ficasse insatisfeito. A ideia chamou atenção, mas ainda não está fechada. Eu diria que o tema pede mais cuidado do que certezas rápidas. O gosto, o efeito metabólico e a resposta fisiológica mudam conforme o tipo de adoçante.
Por que essa pergunta ficou tão presente?
Eu vejo três forças empurrando essa discussão: (1) A busca por controle de peso; (2) O medo do excesso de açúcar; (3) A promessa de manter o sabor doce com poucas ou nenhuma caloria.
Isso parece simples. Troca-se o açúcar por um adoçante e pronto. Só que o cérebro não lida apenas com calorias. Ele também responde ao gosto, à expectativa de energia, ao esvaziamento do estômago e até à memória do prazer ligado a certos alimentos.
Doce não é só sabor. É sinal biológico.
Foi justamente essa relação entre sabor doce, recompensa cerebral e apetite que um estudo recente tentou observar com mais precisão.
Como foi feito o estudo?
O desenho do estudo é interessante porque ele comparou várias opções dentro da mesma lógica experimental. Foram avaliados 30 jovens saudáveis, metade homens, com média de 23 anos. Eles participaram de seis sessões entre fevereiro de 2023 e março de 2024.
Em cada sessão, os participantes consumiam água ou 500 ml de uma água aromatizada de limão. As bebidas adoçadas tinham doçura equivalente, mas usavam compostos diferentes:
- Sucrose, com 25 g e 97 kcal;
- Sucralose;
- Extrato de estévia;
- Extrato de monk fruit (fruta do monge);
- Alulose com estévia;
Eu gosto de detalhar isso porque muitas vezes a palavra “adoçante” vira um bloco único. Aqui, não. Cada substância tem origem e perfil próprios:
- A sucralose é um adoçante de alta intensidade, praticamente sem calorias.
- A estévia vem de uma planta e contém compostos chamados esteviol glicosídeos.
- O monk fruit é extraído do fruto Siraitia grosvenorii.
- A allulose é um açúcar raro, com poucas calorias.
Todos os participantes beberam o conteúdo em até cinco minutos. Depois do teste, recebiam um café da manhã para levar. Esse detalhe é simples, mas eu acho bom citar, porque mostra um cuidado com o protocolo e com a rotina dos voluntários.
O que os pesquisadores mediram?
O estudo não ficou apenas na opinião subjetiva de quem provou. Houve uma tentativa de ligar sensação, metabolismo e cérebro.
Antes do consumo e até 45 minutos depois, foram feitos exames de ressonância magnética cerebral e gástrica. Além disso, amostras de sangue foram coletadas no início e em cinco momentos até uma hora após a ingestão, exceto no dia em que os participantes beberam apenas água.
Os voluntários também avaliaram sabor, doçura e sensação geral de bem-estar.
Esse tipo de desenho ajuda a comparar o que a pessoa sente com o que o corpo e o cérebro mostram.
Para quem acompanha os conteúdos de cérebro e comportamento, essa integração entre percepção e fisiologia combina muito com o entendimento sobre a experiência humana. Não basta perguntar “gostou?”. Também interessa saber o que acontece por dentro. Aliás, quem quiser ampliar esse olhar sobre saúde mental e cérebro pode encontrar discussões relacionadas em conteúdos sobre cérebro e saúde mental.
Como as bebidas foram percebidas?
Nem sempre o cérebro responde igual quando o sabor muda muito. Por isso, a aceitação sensorial faz diferença. No estudo, todas as bebidas adoçadas foram, em geral, bem aceitas. A exceção foi o monk fruit, que agradou um pouco menos.
Todas pareceram mais doces e mais agradáveis do que a água. Ainda assim, monk fruit e alulose com estévia foram vistos como um pouco menos doces que a bebida com sucrose.
Eu considero esse ponto interessante porque mostra que “igual em laboratório” nem sempre é “igual na vivência”. A intensidade percebida e a aceitação podem variar um pouco, mesmo quando a proposta é manter doçura equivalente.
O que aconteceu no cérebro?
Aqui está a parte mais comentada da comparação entre açúcar e adoçantes no cérebro. O fluxo sanguíneo cerebral no hipotálamo não mostrou diferenças entre os tipos de adoçantes. Isso sugere que, nessa área ligada a fome e regulação energética, não apareceu um contraste claro entre as bebidas testadas. Porém, houve um achado que chama atenção na área tegmental ventral, uma região ligada à recompensa. As mudanças nessa área foram menores após a ingestão de sucrose do que após água, sucralose e monk fruit.
Em termos simples, o açúcar pareceu gerar uma resposta neural de recompensa menor nessa medida específica do que água, sucralose e monk fruit.
Isso pode soar estranho à primeira vista. Muita gente supõe que o açúcar sempre aumentaria mais a resposta de recompensa. Só que o cérebro funciona por circuitos, tempo, expectativa e contexto corporal. Uma resposta menor em certa janela de tempo não significa que o açúcar “não dá prazer”. Significa que, naquele protocolo, a atividade medida se comportou de modo diferente.
Houve ainda resultados exploratórios. Após a bebida com alulose e estévia, apareceu aumento de atividade na amígdala quando comparada à sucrose. Após a estévia, foi observado aumento no putâmen, também em comparação com a sucrose.
Os dados sugerem que açúcar e adoçantes não são percebidos pelo cérebro como cópias perfeitas uns dos outros.
Quero destacar que esse tipo de resultado não autoriza conclusões apressadas do tipo “adoçante é melhor” ou “açúcar é pior” para todo mundo, em qualquer dose e contexto. O que ele mostra é diferença em circuitos de recompensa, e isso já é bastante coisa.
O que aconteceu no estômago e no sangue?
Quando se fala de apetite, eu sempre penso que o estômago entra na conversa tanto quanto o cérebro. O estudo também olhou para isso.
A bebida com alulose e estévia, mesmo quase sem calorias, retardou o esvaziamento gástrico de modo parecido com a sucrose. Em outras palavras, ela fez o estômago esvaziar mais devagar de maneira semelhante à bebida com açúcar. Por outro lado, só a bebida com açúcar elevou glicose e insulina no sangue.
O açúcar provocou resposta metabólica clara no sangue, enquanto a combinação alulose com estévia imitou mais o efeito gástrico do que o efeito glicêmico.
Para mim, esse é um dos trechos mais úteis do estudo. Ele mostra que “ter poucas calorias” não significa “agir como água” em todos os aspectos. Algumas bebidas sem carga energética relevante podem, ainda assim, produzir respostas físicas que alteram a sensação corporal ligada à fome e à saciedade.
O que isso diz sobre apetite e desejo por doces?
Durante muito tempo, eu vi circular a ideia de que adoçante aumentaria automaticamente a vontade de comer mais doce depois. O estudo ajuda a deixar essa afirmação menos simplista.
Ele não sustenta uma resposta única para todos os adoçantes. Pelo contrário, mostra que cada composto pode gerar efeitos sensoriais, neurais e gastrointestinais próprios. Isso conversa com algo que eu já percebia ao estudar hábitos: o cérebro aprende por repetição, previsão e consequência. Não existe um atalho tão limpo quanto “adoçante engana o cérebro” em qualquer situação.
Se você quiser aprofundar esse ponto de formação de rotina, vale ler o texto sobre hábitos e cérebro em explicação simples. Ele ajuda a entender por que escolhas alimentares se tornam automáticas.
Também gosto de lembrar que a vontade de comer não nasce apenas da química do alimento. Emoção, contexto social e percepção influenciam muito. Isso aparece de forma clara quando pensamos em como a cognição social influencia decisões e em como as emoções mudam a percepção da realidade.
Fome não é só energia. É interpretação.
O que os autores concluíram?
A conclusão dos autores foi sóbria. No geral, bebidas saborizadas com adoçantes de baixo ou nenhum valor calórico apresentaram respostas neurais e gastrointestinais parecidas com a água, mas com algumas diferenças em regiões cerebrais de recompensa quando comparadas ao açúcar.
O estudo não mostra que todos os adoçantes agem igual ao açúcar, nem que todos agem igual entre si.
Eu aprecio essa forma de concluir porque evita exageros. Em temas ligados à alimentação, o público costuma querer ver vencedores e perdedores. Só que a ciência, muitas vezes, oferece um quadro mais misto.
Quais são os limites desses resultados?
Eu seria injusto com o leitor se não falasse dos limites. O estudo teve apenas 30 participantes, todos jovens e saudáveis, com média de 23 anos. Isso reduz o alcance dos achados para outras idades e outros perfis. Pessoas mais velhas, com obesidade, diabetes, alterações hormonais ou histórico alimentar muito diferente podem reagir de outro modo. Além disso, o estudo observou respostas agudas, logo após a ingestão. Isso não é o mesmo que acompanhar meses ou anos de consumo real.
Outro ponto é que uma bebida isolada, em ambiente controlado, não reproduz toda a vida alimentar de alguém. Eu penso nisso sempre. O cérebro que responde a uma água saborizada no laboratório não é exatamente o mesmo cérebro em um almoço em família, em uma noite de ansiedade ou em um período de privação de sono.
Como eu interpreto isso na prática?
Na prática, eu não reduziria a discussão de acucar-vs-adocante-no-cerebro a uma escolha moral. Nem todo uso de açúcar é sinônimo de descontrole. Nem todo uso de adoçante é solução automática. A pergunta mais útil costuma ser outra: em que contexto, com que frequência e com qual função essa escolha aparece na rotina?
Se a pessoa usa grandes quantidades de açúcar líquido todos os dias, trocar parte disso pode fazer sentido. Se ela depende do sabor doce o tempo todo para regular emoção, talvez a questão esteja além do ingrediente. Quando a relação com comida é movida por impulso, ansiedade ou automatismos, eu vejo valor em trabalhar regulação emocional. Um bom começo pode estar em refletir sobre como regular respostas emocionais com estratégias cognitivas.
Conclusão
Depois de ler esses dados, eu fico com uma conclusão bem direta. Açúcar e adoçantes podem gerar experiências doces parecidas na boca, mas não produzem respostas idênticas no cérebro, no estômago e no sangue. Alguns adoçantes se aproximam mais da água em certas medidas. O açúcar, por sua vez, provoca alterações metabólicas mais claras e também se diferencia em áreas de recompensa.
Isso não encerra o debate. Apenas o torna mais maduro. Escolher entre açúcar e adoçante pede olhar para metabolismo, apetite, prazer, hábito e contexto emocional ao mesmo tempo.
Se você quer entender melhor como emoções, cérebro e comportamento moldam suas decisões alimentares e sua vida diária, eu convido você a conhecer nossa pós-graduação on-line em "Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos", do Instituto UniNAS em parceria com a Faculdade Anhanguera. Esse pode ser um bom passo para transformar informação em autoconhecimento e mudança real.
Perguntas frequentes
O que é melhor para o cérebro: açúcar ou adoçante?
Não existe uma resposta única. O estudo citado indica que açúcar e diferentes adoçantes afetam circuitos de recompensa de modos distintos. O açúcar aumentou glicose e insulina, enquanto alguns adoçantes tiveram respostas neurais e gastrointestinais mais parecidas com a água. Para o cérebro, “melhor” depende do contexto, da quantidade e do padrão de consumo.
Como o açúcar afeta o apetite?
O açúcar pode afetar o apetite por vários caminhos. Ele fornece energia, eleva glicose e insulina e também interage com áreas cerebrais ligadas à recompensa. No estudo, a bebida com sucrose alterou o sangue de forma clara e apresentou um padrão próprio na área tegmental ventral. Isso mostra que seu efeito vai além do sabor doce.
Adoçante causa menos fome que açúcar?
Nem sempre. Depende do tipo de adoçante e do que está sendo medido. No estudo, a combinação alulose com estévia retardou o esvaziamento gástrico de forma parecida com a sucrose, o que pode influenciar sensação de estômago cheio. Mas isso não quer dizer que todo adoçante reduza mais a fome do que o açúcar em qualquer pessoa.
Açúcar ou adoçante engordam mais?
Em geral, o açúcar tende a adicionar mais calorias, o que pode favorecer ganho de peso quando o consumo é alto e frequente. Muitos adoçantes têm pouca ou nenhuma caloria, então podem ajudar a reduzir ingestão energética em algumas trocas. Ainda assim, ganho de peso não depende só de uma bebida ou de um ingrediente. Depende do conjunto da rotina alimentar e dos hábitos.
Adoçante faz mal ao cérebro?
Os dados deste estudo não permitem dizer isso de forma ampla. O que eles mostram é que alguns adoçantes produziram respostas diferentes do açúcar em regiões de recompensa, mas sem um retrato simples de dano cerebral. Até aqui, o mais correto é dizer que adoçantes podem interagir com o cérebro de maneira própria, e não que façam mal de forma automática.