Urna eletrônica cercada por altifalantes gigantes projetando notícias confusas

São incontáveis as vezes que vemos uma pessoa (supostamente) inteligente defender uma informação fraca só porque ela combinava com aquilo que ela já queria acreditar. Em época de eleição, isso cresce. Fica mais rápido. Fica mais emocional. E, muitas vezes, decide votos.

Desinformação não vence apenas pela mentira em si, mas porque encontra uma mente já inclinada a aceitá-la.

Esse ponto aparece com força nos estudos de Alex Edmans, professor da London Business School e autor de May Contain Lies, lançado em maio de 2024. Em seu trabalho, uma ideia chama a atenção: a maior parte das pessoas não é enganada só por falta de dados, mas por causa de atalhos mentais que distorcem a forma como elas avaliam esses dados. Isso é muito visível em períodos eleitorais tensos, quando o medo, a raiva e a identidade política pesam mais do que a checagem fria dos fatos.

Quem acompanha o campo das neurociências afetiva e social, como fazemos no Instituto UniNAS, sabe que crença não nasce apenas da razão. Emoções, grupo social, memória e contexto moldam o que aceitamos como verdade. Por isso, falar de voto hoje exige falar de cérebro, afeto e comportamento.

Por que pessoas instruídas acreditam em absurdos

Essa pergunta parece dura, mas eu prefiro encará-la sem arrogância. Eu também estou sujeito a isso. Todos estamos. Alex Edmans mostra que o problema não é só ignorância. Muitas vezes, o problema é o desejo de confirmar uma narrativa.

Durante a eleição norte-americana de 2024 entre Harris e Trump, continuou forte entre apoiadores de Trump a aceitação de alegações sem prova sobre fraude na eleição de 2020. Mesmo após repetidas contestações e ausência de evidência sólida, a narrativa seguiu viva. Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque, para muitos, a história parecia coerente com a visão de mundo que já tinham.

Eu creio, logo filtro.

Quando uma afirmação combina com minha identidade, meu cérebro tende a tratá-la com menos desconfiança.

É aqui que entra o viés de confirmação. Em termos simples, trata-se da tendência de buscar, valorizar e interpretar informações de modo que elas sustentem o que eu já penso. Se gosto de um candidato, passo a ler qualquer notícia positiva como prova de sua virtude. Se surge uma crítica, procuro defeitos na fonte antes mesmo de avaliar o conteúdo.

Esse processo tem relação com temas já discutidos em conteúdos sobre cognição social e como ela influencia decisões. Eu gosto dessa ponte porque ela ajuda a entender que votar não é só escolher propostas. É também interpretar pessoas, grupos e sinais sociais.

Como o viés de confirmação age no voto

Na prática, o viés de confirmação transforma a disputa política em um jogo desigual. A pessoa não pesa argumentos com o mesmo padrão. Ela cria dois filtros: um leve para o que agrada e um duro para o que incomoda.

Eu vejo esse movimento acontecer em etapas bem previsíveis:

  • A mensagem favorável ao meu lado parece intuitivamente verdadeira;
  • Eu compartilho antes de verificar porque sinto "urgência emocional";
  • Informações contrárias me parecem suspeitas, mesmo quando são melhores;
  • Passo a confiar mais em quem pensa como eu do que em quem apresenta provas;

Em ambientes polarizados, isso piora. Nas redes sociais, o usuário recebe reforço constante do próprio grupo. O algoritmo observa preferências, entrega mais do mesmo e ajuda a construir uma sensação enganosa de consenso.

Se eu só encontro versões parecidas de uma mesma ideia, começo a sentir que ela é obviamente verdadeira.

Não é coincidência. É estrutura de exposição. E ela conversa diretamente com o realismo afetivo, tema que também aparece em textos sobre a influência das emoções na percepção. Considero esse ponto muito útil: muitas vezes, não vemos o mundo como ele é, mas como nos sentimos diante dele.

O efeito de verdade ilusória

Existe outro mecanismo que pesa muito nas eleições: o efeito de verdade ilusória. Eu acho esse fenômeno especialmente perigoso porque ele é simples. Quanto mais uma mensagem é repetida, mais familiar ela parece. E, quanto mais familiar, mais verdadeira tende a soar. Logo, quando um grande grupo de pessoas começa a chamar um indivíduo de fascista - mesmo que ele nunca tenha tido, de fato, uma atitude fascista, muitos passam acreditar que isso é verdade, por exemplo. Ou também, quando um grupo de pessoas começa a dizer repetidamente que uma figura pública-política não é corrupta - mesmo que ela tenha sido condenada por corrupção, muitos outros indivíduos passam acreditar que ela não é, de fato.

Repetição cria conforto, e conforto pode ser confundido com verdade.

Não importa se a frase é falsa, exagerada ou extrema. Se ela volta várias vezes, em formatos diferentes, por vozes conhecidas, ela ganha aparência de fato. Isso vale para slogans, cortes de vídeo, montagens e narrativas conspiratórias.

Um exemplo forte foi a atuação de sites operados por agentes russos que distribuíram conteúdo pró-Rússia e anti-Ucrânia durante ciclos eleitorais, muitas vezes disfarçados com aparência de grandes jornais. O uso de IA, influenciadores e anúncios pagos ajudou a dar verniz de legitimidade. A pessoa comum via o material e pensava: “se está em tantos lugares, deve ter algo ali”. É exatamente assim que a mentira se estabiliza.

No cotidiano, encontramos isso também em boatos menores. Alguém escuta a mesma frase em três grupos, depois em um vídeo curto, depois em um post com imagem “profissional”. De repente, a dúvida some. Não porque houve prova, mas porque houve repetição.

IA, deepfakes e manipulação mais sofisticada

Se antes já era difícil distinguir o real do falso, agora a tarefa ficou ainda mais dura. Ferramentas de IA aceleram a produção de conteúdo enganoso com aparência cada vez mais convincente. Áudio, vídeo, imagem e texto podem ser fabricados em escala.

Um caso que ilustra isso foi o deepfake divulgado por Ron DeSantis envolvendo Trump e Fauci. Independentemente do efeito eleitoral direto, o episódio mostra algo sério: basta uma peça falsa bem montada para semear dúvida, reforçar identidade de grupo e mover conversa pública por horas ou dias.

A IA não cria o viés de confirmação, mas amplia sua velocidade e seu alcance.

Ao mesmo tempo, a própria IA pode ajudar a detectar padrões de fraude e rastrear redes de desinformação. O problema é que a tecnologia serve aos dois lados. Por isso, não basta confiar que plataformas ou ferramentas vão resolver tudo. É preciso adotar postura ativa, cética, atenta.

Quando a desinformação entra nas empresas

Muita gente trata esse assunto como se fosse restrito ao eleitor comum. Não é. Líderes empresariais também votam, compartilham crenças e moldam ambientes. E, embora cada líder tenha apenas um voto, seu peso cultural dentro de uma organização pode ser bem maior. É possível observar equipes em que certos temas políticos viram tabu, enquanto outros podem circular sem questionamento. Isso é um campo fértil para a desinformação. Se ninguém se sente seguro para perguntar, duvidar ou apresentar outra leitura, narrativas frágeis se enraízam.

Por isso, faz sentido defender ambientes psicologicamente seguros. Não se trata de exigir concordância. Trata-se de permitir debate sem medo de humilhação ou punição imediata. Esse cuidado reduz a chance de que boatos, simplificações e hostilidade passem a reger decisões.

O caso do Google, com protestos internos e demissões após conflitos ligados à situação em Gaza, mostra como tensões geopolíticas e disputas narrativas atravessam o mundo do trabalho. Em contextos assim, a empresa não fica isolada da sociedade. Ela absorve seus conflitos, seus medos e suas versões concorrentes da realidade.

Em discussões sobre mente e saúde emocional, como as que aparecem em cérebro e saúde mental, eu costumo notar o mesmo ponto: quando a pessoa vive em estado de ameaça ou pressão grupal, pensar bem fica mais difícil.

O que Alex Edmans propõe

O ponto mais útil do trabalho de Alex Edmans, para mim, é que ele não oferece uma saída mágica. Ele sugere ferramentas mentais. Isso é mais honesto. O problema não se resolve só com checagem de fatos, porque a adesão à mentira muitas vezes acontece antes da checagem, no nível do desejo, da identidade e da pressa.

Pensar criticamente inclui questionar com o mesmo rigor o que me agrada e o que me desagrada.

Eu gosto de uma prática simples defendida nessa linha: imaginar o oposto de uma afirmação e procurar falhas no raciocínio original. Se alguém diz que vinho tinto aumenta a expectativa de vida, por exemplo, vale perguntar se não há variáveis ocultas. Talvez quem consome vinho em certos contextos também tenha renda maior, dieta melhor ou acesso mais amplo a cuidados de saúde. O ponto não é negar tudo. É não aceitar rápido demais.

Na política, esse treino ajuda muito. Se surge um dado ótimo sobre meu candidato, eu posso perguntar:

  • Quem produziu essa informação?
  • Há contexto faltando?
  • Existe outra explicação plausível?
  • Eu acreditaria com a mesma facilidade se fosse sobre o rival?

IMPORTANTE: Essa última pergunta costuma incomodar. Justamente por isso, ela funciona (e é minha preferida para ser usada com amigos, familiares e alunos).

Hábitos para não virar presa fácil

Sendo muito honesto, eu não acredito em neutralidade perfeita. Mas acredito em disciplina mental. Em novos ciclos eleitorais, isso será cada vez mais necessário. Algumas práticas simples ajudam a reduzir o poder da desinformação sobre o voto:

  • Diminuir a pressa de compartilhar conteúdo emocional.
  • Verificar se a fonte tem histórico confiável e contexto claro.
  • Ler além do título e desconfiar de cortes muito convenientes.
  • Buscar uma interpretação alternativa antes de fechar opinião.
  • Observar como meu corpo reage, sobretudo raiva, medo e euforia.
  • Fazer pausas no consumo digital para reduzir saturação e impulso.

Sobre esse último ponto, eu gosto muito da discussão sobre detox digital e redes sociais. Nem sempre sair por um tempo resolve tudo, mas pode devolver um pouco de distância crítica, o que já ajuda bastante.

Conclusão

Quando eu penso em como votos são decididos, não vejo apenas propaganda ou proposta. Vejo emoção, repetição, identidade e ambiente social. Desinformação funciona porque encontra brechas da mente humana. O viés de confirmação mantém narrativas vivas mesmo sem prova. O efeito de verdade ilusória dá cara de fato ao que foi apenas repetido. Redes sociais e IA tornam tudo mais rápido, mais bonito e mais difícil de contestar.

Democracias saudáveis dependem de cidadãos capazes de duvidar até daquilo que desejam que seja verdade.

Por isso, líderes, eleitores e cidadãos precisam assumir responsabilidade sobre seus hábitos informativos. Reconhecer o próprio viés não é fraqueza. Para mim, é sinal de maturidade. O trabalho desenvolvido por nós, no Instituto UniNAS, ao aproximar neurociências, emoções e comportamento humano, ajuda justamente nesse ponto: compreender como pensamos para escolher melhor. Se você quer aprofundar esse olhar e desenvolver mais autonomia mental diante da desinformação, vale conhecer os cursos e conteúdos do projeto.

Perguntas frequentes

O que é viés de confirmação?

Viés de confirmação é a tendência de aceitar com mais facilidade informações que combinam com crenças já existentes e rejeitar ou desvalorizar dados que as contradizem. Na política, isso faz a pessoa interpretar quase tudo como prova a favor do seu candidato, mesmo quando a fonte é fraca ou o argumento é incompleto.

Como a desinformação afeta eleições?

A desinformação afeta eleições ao distorcer a percepção dos fatos, aumentar medo e raiva, reforçar divisões e influenciar decisões de voto. Ela ganha força quando circula em redes sociais, grupos fechados e conteúdos repetidos, criando a impressão de verdade e empurrando eleitores para conclusões baseadas mais em emoção do que em evidência.

Por que acreditamos em fake news?

Acreditamos em fake news por vários motivos: viés de confirmação, repetição da mensagem, confiança excessiva em quem pensa como nós, pressa para reagir e dificuldade de avaliar fontes em ambientes polarizados. Quando uma notícia falsa confirma uma opinião prévia, o cérebro tende a baixar a guarda e aceitar a mensagem sem exame mais cuidadoso.

Quais são exemplos de viés político?

Alguns exemplos comuns são tratar um erro do próprio candidato como detalhe, mas ver o mesmo erro no adversário como prova de caráter; confiar em uma pesquisa só quando ela favorece o lado que apoio; compartilhar um vídeo sem verificar porque ele confirma minha visão; e considerar suspeita qualquer notícia negativa sobre meu grupo, mesmo quando há evidências consistentes.

Como evitar cair em desinformação?

Para evitar cair em desinformação, eu sugiro desacelerar antes de compartilhar, checar a origem do conteúdo, comparar versões, procurar contexto, fazer perguntas contrárias à própria crença e observar o peso das emoções na leitura da notícia. Também ajuda reduzir a exposição contínua a feeds polarizados e treinar pensamento crítico de forma constante, não só em época de eleição.

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Professor, Pesquisador e Terapeuta Bech.

Neurociências Afetiva e Social.

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Matheus Milan

Sobre o Autor

Matheus Milan

Fundador e Coordenador do primeiro clube de conteúdos e cursos das neurociências afetiva e social, o Clube NAS. Diretor do Centro Educacional UniNAS, instituição de ensino superior que, tendo como base as neurociências afetiva e social, oferece cursos de extensão e de pós-graduação com chancela do MEC.

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