Jovem em sala observa miniaturas de futuras versões de si interagindo com outras pessoas

Em muitos momentos do dia, percebo que estou imaginando situações que ainda nem ocorreram. Pensando no que vou falar em um atendimento ou em uma aula, antecipando um passeio, ou até criando diálogos na minha mente com pessoas queridas. Não sou só eu: passamos grande parte do nosso tempo visualizando eventos futuros. Esses pensamentos ajudam não apenas a planejar ações, mas também a regular nossas emoções e fazer escolhas melhores. Isso é chamado de “Episodic Future Thinking” (Pensamento Episódico Futuro, em tradução livre). Ou seja, quase todo mundo, ao imaginar o amanhã, recorre ao passado como referência, usando experiências anteriores e relações como base para esses cenários.

Por que pensamos tanto no futuro?

No meu trabalho, seja como professor ou terapeuta no Instituto Hoplytas, noto que relações passadas, positivas ou negativas, inevitavelmente aparecem quando as pessoas descrevem seus sonhos e preocupações sobre o que está por vir. Isso acontece porque o cérebro atua de forma parecida ao recordar e ao pensar no futuro, buscando padrões, sensações e aprendizados já vividos.

Esse jeito de imaginar o futuro afeta diretamente nossa motivação, nossa tomada de decisão e até nosso bem-estar emocional. Visualizar soluções para desafios, sonhar com conquistas e até enfrentar medos imaginando um cenário possível pode transformar completamente a forma como enfrentamos os próprios dilemas.

Os estilos de apego: raízes emocionais profundas

Ao longo dos anos, estudos em neurociências afetiva e social, psicologia e comportamento humano, destacam o papel dos chamados estilos de apego. Eu costumo explicar aos meus alunos que esses estilos são modos estáveis de sentir e agir em relacionamentos, formados na infância mas que nos acompanham por toda a vida.

Cada pessoa tem uma inclinação mais predominante, que pode ser resumida em dois traços principais:

  • Ansiedade de Apego: marcada pelo medo de abandono e busca intensa de proximidade, necessidade constante de aprovação e receio de rejeição.
  • Evitação de Apego: traduzida por desconforto com vínculos íntimos, tendência a manter distância emocional e preferência pela autonomia extrema.

Essas bases emocionais não determinam só o modo como amamos ou nos conectamos. Pesquisadores começaram a perguntar: será que nossos estilos de apego influenciam até mesmo quem colocamos, ou não, em nossas fantasias/projeções de futuro?

Entendendo como o apego molda os futuros imaginados

Recentemente, um grupo de pesquisadores investigou exatamente isso: se o estilo de apego de cada um afeta a presença ou ausência de outras pessoas nos cenários futuros que imaginamos.

Primeiro estudo: jovens chineses, olhos no futuro

A primeira pesquisa reuniu 155 universitários chineses, a maioria mulheres. Eles responderam inicialmente a um questionário sobre apego, medindo ansiedade e evitação. Em seguida, foram convidados a imaginar cinco eventos futuros específicos, avaliando o quanto cada situação envolvia a participação de outras pessoas.

Jovens em um café olhando um para o outro enquanto imaginam situações futuras juntos Pude perceber, ao ler os resultados, o que muitas vezes observo numa simples conversa na clínica ou com alunos: quem apresenta alta ansiedade de apego tende a envolver muito mais outras pessoas ao pensar no próprio futuro. Já pessoas com alto índice de evitação imaginam, com frequência, cenários solitários. Isso faz sentido: ansiosos de apego se preocupam em manter laços e buscam amparo; evitadores valorizam independência, até mesmo quando só estão "sonhando acordados".

Segundo estudo: o papel do estresse nos futuros imaginados

Para aprofundar, um outro momento (experimento) envolveu 67 estudantes japoneses. O procedimento foi semelhante, mas desta vez eles tiveram que imaginar tanto situações futuras rotineiras e pouco estressantes quanto cenários de alto estresse.

Os dados bateram com a primeira pesquisa, mas trouxeram um detalhe bem interessante. Nas tarefas não estressantes, quem tinha alta evitação de apego continuava imaginando menos pessoas, preservando esse desejo de manter distância mesmo em pensamentos. Porém, nas situações estressantes, até mesmo os evitadores incluíam mais interações e apoio de terceiros em suas imaginações.

"Mesmo quem prefere distância pede companhia, ao menos em pensamento, quando imagina passar por um momento difícil."

A ansiedade de apego funcionou diferente: pessoas ansiosas sempre tendem a focar nos outros, buscando sua presença nos futuros possíveis, independentemente do evento ser fácil ou desafiador.

Entendendo os resultados: nuances e limites

As tendências identificadas nos estudos são compatíveis com relatos espontâneos de quem sofre com solidão ou medo exagerado de dependência dos outros.

O mais interessante é perceber que a influência do apego não se limita à forma como agimos no presente ou como recordamos o passado. Agora, está claro que ele também colore nossas projeções do que ainda está por vir. Quem somos emocionalmente, nosso histórico de vínculos e afetos, aparece sutilmente até nos cenários mais íntimos construídos na nossa mente.

Cuidado com generalizações: amostras e métodos

É fundamental dizer: os resultados vêm de amostras muito específicas. Jovens universitários, majoritariamente mulheres, vindos de culturas orientais. Por mais que eu ache os achados bastante interessantes, não posso dizer que valem para todo mundo, de qualquer cultura ou faixa etária.

O experimento em si foi bastante artificial: os participantes responderam a todas as tarefas em sequência, sem sorteio das ordens. Além disso, logo após a primeira rodada de imaginação, já tinham que avaliar o quanto havia conteúdo relacional naquele cenário, o que podia “contaminar” ou guiar as respostas seguintes.

Considero importante pesquisar essa relação em grupos variados – homens, mulheres, de diferentes idades, outras culturas – e, se possível, fora do laboratório, captando os pensamentos espontâneos durante o dia. Ferramentas simples, como anotações rápidas no celular, poderiam ampliar e sofisticar bastante esse tipo de análise.

Apego, imaginar o futuro e saúde emocional

No final do dia, a pergunta real é: vale a pena se preocupar com “quem” aparece nos nossos futuros imaginados? Não existe resposta universal, nem fórmula certa.

  • Pessoas de alta ansiedade de apego tendem a imaginar-se em companhia, preocupadas com aceitação e pertencimento.
  • Indivíduos mais evitadores projetam autonomia, buscando cenários de autossuficiência.
  • O contexto (rotina ou crise) pode mudar completamente esse roteiro imaginativo.

São, na verdade, padrões ou tendências, não regras fixas. O estilo de apego oferece um mapa, não um roteiro fechado. Ninguém está fadado a repetir para sempre uma mesma forma de pensar sobre o futuro, nem existe “mais saudável” ou “mais correto”. A diversidade emocional é parte da nossa riqueza humana.

Eu mesmo, quando lembro de situações pessoais ou conversas com alunos do Instituto UniNAS, percebo o quanto as pessoas aprendem sobre si mesmas ao refletir sobre aquilo que estão imaginando, não apenas sobre o que já viveram.

Outro ponto vem das neurociências afetiva e social: processos de lembrar o passado e projetar o futuro usam redes cerebrais parecidas, mas seus efeitos para o bem-estar podem ser bem diferentes. Remoer más lembranças é pesado; imaginar um futuro com esperança transforma. Entender essas nuances é o futuro, inclusive da própria psicologia.

Pensando o amanhã: benefícios práticos

Ao lidar com saúde mental e terapia, como faço diariamente, percebo a importância de ensinar as pessoas sobre estilos de apego. Compreender porque você imagina-se sozinho ou rodeado no amanhã pode ser o ponto de partida para mudar padrões, fortalecer laços ou, pelo menos, aliviar culpas desnecessárias.

Se você tem interesse por esses temas, sugiro ler mais em conteúdos sobre cérebro e saúde mental aqui mesmo. Aprofundamentos assim também existem em publicações sobre neurociências afetiva e social e em outros vídeos interessantes no meu canal no Youtube.

Busque não se comparar. Entenda-se. Saber seu estilo de apego ajuda, mas não limita o que você pode construir para si mesmo ou com os outros, hoje ou amanhã.

Conclusão

Em tudo que vivi e aprendi neste campo, acredito que nossos estilos de apego funcionam como lentes através das quais enxergamos não só o passado, mas também o que desejamos ou tememos do futuro. Imaginar o amanhã é sempre um processo criativo, repleto de nuances emocionais, onde experiências e aprendizados se misturam. Essas descobertas desafiam a ideia de que apego “só” importa no contexto da infância ou dos casais. Ele está, de algum modo, em toda fantasia de futuro – solitária ou coletiva.

Quer descobrir de que forma seu estilo de apego tem influenciado seus planos e sonhos? Comece hoje sua jornada de autoconhecimento conosco no Instituto UniNAS, por meio dos nossos cursos, workshops ou palestras. Entender o próprio funcionamento é o primeiro passo para desenhar futuros mais conscientes, realizados e saudáveis.

Perguntas frequentes

O que é estilo de apego?

Estilo de apego é o padrão de como nos relacionamos afetivamente e lidamos com intimidade, baseado nas experiências iniciais de vínculo com cuidadores. Pode se manifestar em forma de segurança, ansiedade ou evitação nas relações adultas.

Como o apego afeta nossos relacionamentos?

Pessoas com estilos de apego seguro tendem a formar vínculos mais estáveis e satisfatórios, enquanto estilos ansioso ou evitativo podem gerar insegurança, dependência ou distanciamento emocional nas relações.

O apego influencia nossos sonhos futuros?

Sim, o estilo de apego afeta como imaginamos o futuro: pessoas ansiosas tendem a incluir mais outros em suas fantasias, enquanto evitadores visualizam cenários de maior independência. Mas são tendências, não regras fixas.

Quais são os tipos de apego?

Os principais estilos são: seguro, ansioso (ou ambivalente) e evitativo. Alguns modelos também consideram o desorganizado. Cada um reflete um modo diferente de sentir e se comportar nos vínculos.

Como mudar meu estilo de apego?

É possível mudar padrões de apego por meio de autoconhecimento, terapia, experiências relacionais positivas e práticas de reflexão. Conhecimento e novas vivências favorecem a transformação emocional ao longo da vida.

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Professor, Pesquisador e Terapeuta Bech.

Neurociências Afetiva e Social.

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Matheus Milan

Sobre o Autor

Matheus Milan

Fundador e Coordenador do primeiro clube de conteúdos e cursos das neurociências afetiva e social, o Clube NAS. Diretor do Centro Educacional UniNAS, instituição de ensino superior que, tendo como base as neurociências afetiva e social, oferece cursos de extensão e de pós-graduação com chancela do MEC.

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