Ao longo da minha trajetória estudando neurociências afetiva e social, venho percebendo como a compreensão sobre o que é ser homem está ligada, de maneira profunda, à saúde mental e física masculina. Historicamente, nos estudos de psicologia, meninos e homens foram vistos como o padrão neutro, sem se considerar os efeitos das expectativas sociais sobre o que é masculinidade.
De referência neutra à Nova Psicologia dos Homens
No passado, as pesquisas em psicologia tratavam homens e meninos quase como se fossem “a norma”, enquanto as mulheres eram o “outro” a ser estudado. Assim, durante muito tempo os efeitos do gênero sobre os próprios homens foram ignorados.
Foi somente a partir do final do século XX que psicólogos (pesquisadores/estudiosos) começaram a prestar atenção a como fatores sociais, culturais e ecológicos impactam a saúde dos homens. Essa mudança inaugura a "Nova Psicologia dos Homens", trazendo à tona reflexões sobre papéis de gênero, masculinidade e suas consequências.
O masculino não é neutro: é influenciado pela cultura, contexto social e história pessoal.
Como a socialização masculina afeta meninos e adultos
Ao conversar com pais, professores e outros profissionais da saúde, vejo que persiste uma ideia forte de que meninos devem ser autossuficientes, invulneráveis e competitivos. Esses valores, reforçados ao longo da infância e adolescência, limitam o desenvolvimento emocional e psicológico dos meninos, e essa restrição pode trazer consequências graves.
- A limitação de afetos e emoções reduz a empatia.
- Alguns comportamentos naturais acabam sendo reprimidos ou desencorajados.
- Existe pressão constante para corresponder ao ideal de força e invencibilidade, mesmo nos momentos de fragilidade.
Em minhas leituras e práticas, vejo que meninos são mais representados entre crianças com dificuldades de aprendizagem, notas baixas em avaliações/provas, problemas de comportamento como bullying, suspensões escolares e agressividade. Não por acaso, homens também são maioria nas prisões, cometem mais crimes violentos e são, ao mesmo tempo, vítimas em proporção maior desses mesmos crimes.
Masculinidade tradicional e saúde mental
Uma questão que sempre surge nas sessões de terapia na clínica e instituto Hoplytas é por que tantos homens evitam pedir ajuda quando enfrentam sofrimento emocional. A resposta é, para mim, quase sempre a mesma: a socialização masculina valoriza autossuficiência, contenção emocional e força acima de tudo.
A consequência direta é que homens tendem a buscar menos os serviços de saúde mental. Mesmo quando sentem ansiedade, tristeza ou angústia, muitos resistem em procurar ajuda por medo de serem vistos como “frágeis”, “fracos” ou “menos homens”.
“Homens não choram” ainda ecoa nos consultórios, apesar do sofrimento real.
No universo dos adolescentes, observo que essa socialização se transforma em conflitos de identidade, tensão com os próprios sentimentos e dificuldade de regular emoções diante dos desafios. Isso é tema constante em nossos conteúdos sobre terapia para homens.
Diagnóstico, preconceitos e as diferenças de gênero
Durante pesquisas e atendimentos (sem citar as conversas em rodas de amigos e colegas), é muito comum escutar homens que se sentem julgados ou incompreendidos no ambiente profissional ou pessoal. Alguns relatam experiências de preconceito de gênero, o que pode afetar negativamente tanto o diagnóstico quanto o tratamento.
Um dado importante (e curioso) é que homens costumam ser menos diagnosticados com transtornos internalizantes, como ansiedade e depressão, apesar de serem cerca de quatro vezes mais propensos a morrer por suicídio do que mulheres, segundo dados mundiais recentes. Em contrapartida, acabam sendo mais diagnosticados com transtornos externalizantes, como conduta desafiadora ou uso de substâncias.
Mesmo sem perceber, muitos profissionais reforçam estereótipos de gênero. Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que meninos recebem mais diagnósticos de TDAH em comparação às meninas. Esse viés pode estar presente também em ambientes de apoio social, como abrigos para vítimas de abuso, onde homens frequentemente enfrentam resistência ou tratamento menos empático.
Papéis de gênero e consequências na saúde física
É importante lembrar que fatores biológicos, sociais e econômicos se combinam para afetar a saúde dos homens de forma ampla. Os dados apontam que eles apresentam taxas de mortalidade mais elevadas do que as mulheres em quase todas as causas e faixas etárias, mesmo quando dispõem de mais vantagens socioeconômicas.
Em boa parte, isso pode ser relacionado a uma disposição maior a riscos, encorajada, por vezes, como parte da identidade masculina tradicional. Destaco aqui alguns fatores que contribuem para esse cenário:
- Maior exposição a acidentes e violências devido a comportamentos de risco;
- Maior consumo de álcool e outras substâncias;
- Adesão tardia a tratamentos médicos e demora para procurar cuidados preventivos;
- Tendência ao isolamento diante de dores emocionais;

O impacto do estigma na busca por ajuda
Na prática clínica, frequentemente é possível encontrar homens que adiaram procurar atendimento psicológico por anos, alguns chegam tardiamente após tentativas de solução individual acabarem em exaustão e sofrimento crônico.
O estigma em buscar auxílio profissional ainda pesa de modo intenso na vida dos homens.
Muitos relatam vergonha de admitir que precisam de ajuda, medo de não serem levados a sério, ou receio de encontrar profissionais pouco sensíveis às suas especificidades. Isso contribui para uma estatística alarmante: para muitos homens, os tratamentos só são buscados em situações-limite, como separações, ameaças à saúde física ou crises graves de ansiedade.
Outras identidades e masculinidade: interseccionalidade e vulnerabilidade
Quando se pensa em saúde e masculinidade, é impossível não considerar outras identidades sociais que atravessam esses sujeitos. Raça, orientação sexual e classe social, entre outros fatores, influenciam diretamente o modo como as masculinidades são construídas e vividas.
Os desafios tendem a se agravar para homens negros, indígenas, periféricos ou LGBTQIA+, pois enfrentam múltiplos preconceitos e maior exposição à violência.
É nessas intersecções que a compreensão da masculinidade se torna uma competência cultural, indispensável para psicólogos, terapeutas, educadores e gestores.
O valor de compreender papéis de gênero na prática psicológica
Tenho convicção de que a atuação psicológica efetiva com meninos e adultos demanda conhecimento aprofundado sobre como papéis de gênero são aprendidos, reproduzidos e questionados. Isso faz diferença no estabelecimento de relações terapêuticas adequadas, na criação de ambientes de acolhimento e no desenvolvimento de estratégias de regulação emocional voltadas para homens, como as que compartilhei no artigo sobre regulação de emoções no ambiente de trabalho.
A saúde dos homens não é só uma questão individual. É uma pauta social de interesse coletivo.
Convido profissionais e interessados a conhecer mais sobre nosso trabalho em neurociências afetiva e social. No Instituto UniNAS, temos buscado construir um espaço que promova autoconhecimento, autonomia e transformação pessoal, sempre à luz das evidências científicas e com respeito à individualidade de cada um.
Faça parte dessa conversa. Entenda, cuide e amplie o olhar sobre saúde masculina conosco.
Perguntas frequentes
O que é masculinidade saudável?
Masculinidade saudável é a vivência do ser homem sem se limitar por padrões rígidos, acolhendo emoções, vulnerabilidades e diferentes formas de ser no mundo. Envolve reconhecer sentimentos, buscar apoio quando necessário e não reduzir a identidade a ideias de força ou autossuficiência. Isso permite mais liberdade emocional e relacionamento mais autênticos.
Como a masculinidade afeta a saúde?
A masculinidade tradicional pode restringir expressões emocionais e dificultar a procura por ajuda, aumentando o risco de depressão, ansiedade e problemas físicos. Também incentiva comportamentos de risco e o isolamento diante das dificuldades. Uma masculinidade flexível favorece saúde mental e física.
Quais são os principais desafios dos homens?
Entre os desafios, destaco: pressão para autossuficiência, repressão de emoções, estigma em buscar tratamento psicológico, maior exposição à violência e diagnósticos enviesados nos serviços de saúde. Esses desafios são ainda maiores para homens que enfrentam discriminações sociais cruzadas, como pobreza, racismo ou homofobia.
Por que falar sobre saúde mental masculina?
Porque a saúde mental dos homens está entrelaçada com índices elevados de suicídio, violência e sofrimento silencioso. Falar sobre o tema quebra estigmas, ajuda a identificar sinais de sofrimento cedo e promove ambientes mais saudáveis para todos.
Como buscar ajuda psicológica para homens?
O primeiro passo é reconhecer a necessidade de apoio, sem vergonha ou medo. Buscar profissionais que compreendam as especificidades do universo masculino pode ajudar. No movimento e instituto Hoplytas oferecemos espaços acolhedores para essa jornada, conhecer nossos serviços pode ser o começo de um movimento transformador para a saúde de meninos e homens adultos.