Laboratório com cérebro humano e silhueta de lobo separados por vidro

A Teoria das Emoções Construídas (CToE, abreviação em inglês), de Lisa Feldman Barrett, traz uma abordagem instigante e desafiadora ao campo das neurociências afetivas, sobretudo quando se trata de entender o que realmente são as emoções, onde surgem, quem as vivencia e por que sentimos como sentimos. Ao longo deste artigo, quero compartilhar minhas reflexões, desconfortos, críticas e pontos de equilíbrio que fui encontrando ao estudar o tema e, também, estudar outros pesquisadores de referência como Jaak Panksepp, Barbara Tversky e Dacher Keltner. A proposta aqui é, a partir de minha experiência clínica e acadêmica, abrir espaço para questionamentos, ponderações e, quem sabe, um olhar mais plural sobre essa discussão tão atual.

Inclusive, a própria Lisa Feldman Barrett (juntamente com James Russell) respondeu praticamente todas as críticas (para não dizer todas) no livro "The Psychological Construction of Emotion". Porém, como a ciência é movida por perguntas e questionamentos, abaixo compartilho observações e indagações realizadas por pesquisadores que defendem outra perspectiva, isto é, discordam em partes (ou integralmente) com as ideias de Barrett (por exemplo: Ralph Adolphs, Karolina Westlund, Karlijn van Heijst, Mariska E. Kret e Annemie Ploeger).

Afinal, o que propõe a teoria das emoções construídas?

A CToE defende que as emoções não são fenômenos biológicos universais, inatos ou geneticamente programados. Segundo Lisa Feldman Barrett, aquilo que convencionamos chamar de “emoção” depende de processos de categorização mediados pela linguagem e pela cultura. Em sua visão, sentir raiva, medo, tristeza, alegria e outras emoções só ocorre quando os estados afetivos brutos, aquelas sensações de agradável, desagradável, alerta ou calma que todos conhecemos, são organizados em categorias aprendidas socialmente.

A teoria faz uma distinção entre afeto e emoção. O afeto seria um repertório básico, inato, ligado ao corpo, um plano de fundo sensorial de bem-estar ou desconforto, maior ou menor energia. As emoções, por sua vez, “surgem” apenas quando identificamos e nomeamos determinada experiência como, por exemplo, tristeza ou medo. E esse passo só seria possível porque aprendemos, socialmente, o que é tristeza ou medo, graças à troca com o ambiente e à linguagem verbal.

Sem linguagem, não haveria emoção. Apenas afeto.

É aí que surge o primeiro incômodo, pelo menos de alguns críticos. Se tomarmos essa afirmação ao pé da letra, ela excluiria praticamente todos os animais do universo emocional, alegando que só humanos, ou quem domina complexamente a linguagem, poderiam de fato sentir emoções (de novo, Barrett responde esse desentendimento no livro "The Psychological Construction of Emotion".)

A exclusão dos animais: um problema conceitual e ético

Quem já conviveu com cães, gatos, ou acompanha pesquisas etológicas há tempos, sente um certo estranhamento diante dessa conclusão. Desde Jaak Panksepp, estudiosos mostraram que animais demonstram respostas emocionais robustas e específicas.

  • Ratos "choram" ao perderem companheiros;
  • Elefantes visitam ossadas de parentes mortos, num tipo de ritual de luto;
  • Macacos podem apresentar gestos de consolo, raiva e alegria perfeitamente reconhecíveis;

No entanto, a CToE diria que as reações animais não passam de afeto, dado o suposto “vazio de linguagem”.

Dacher Keltner e Barbara Tversky trazem uma reflexão complementar. Tversky mostra que o pensamento visual e espacial antecede cronologicamente a linguagem, em humanos e outros animais. Keltner acrescenta que expressões simbólicas podem nascer, sim, de repertórios não-verbais, oriundos de nossa evolução social primata.

Ou seja: talvez animais realmente construam emoções, mas em um modo perceptivo, visual, corporal e social descontínuo da linguagem complexa.

Esse ponto pode levar a outro exemplo impressionante, como cita Karolina Westlund: o caso das meninas-lobo ucranianas, assim chamadas por terem crescido isoladas de contato humano, convivendo apenas com lobos. Quando encontradas, apresentavam respostas emocionais limitadas e desajeitadas, com poucos sinais afetivos reconhecíveis em humanos socializados.

Nesse caso, fica claro como meio e socialização deslocam (ou não permitem desenvolver) o repertório emocional completo. Mas também não se pode dizer que não sentiam nada. Tenho convicção: a biologia e o ambiente dançam juntos e explicam muito mais nuances do que qualquer teoria que tente abolir uma das duas partes.

Limites científicos: metodologia, evidências e riscos práticos

O aspecto mais delicado, segundo os críticos, está em como a CToE se posiciona em relação às abordagens clássicas que procuram raízes evolutivas das emoções.

Quando Barrett recusa “emoções básicas inatas” e trata até o medo como mera construção cultural, rompe com boa parte da tradição de Darwin, Panksepp e outros. Isso é visto por muitos como um caminho potencialmente perigoso, até mesmo no plano da ética aplicada.

Explico melhor. Ao negar emoções a animais, abre-se margem para justificar práticas questionáveis nos setores agropecuários, pesquisa laboratorial e indústria do entretenimento. Se o animal não sente medo ou dor emocional (pois carece de linguagem), certos paradigmas de bem-estar animal podem ser enfraquecidos.

No universo científico, parte da comunidade mostra desconforto com o estilo de argumentação da CToE. Relatos são muito anedóticos, ausência de replicabilidade ampla, e fundamentação neurocientífica baseada em metodologias "frágeis". Alguns questionamentos recorrentes de outros pesquisadores:

  • Análises de voxels em neuroimagem, nem sempre confiáveis por excesso de variáveis e baixa resolução temporal.
  • Meta-análises que mesclam estudos pouco comparáveis.
  • Distorções nos critérios de classificação dos dados originais.

Como resultado, há certo consenso de que, embora a teoria seja provocativa e convidativa para pensar de forma mais flexível, essa outra corrente de pesquisadores destacam que ainda falta evidência sólida para abandonar completamente a ideia de emoções inatas.

O que realmente acrescenta o modelo construtivista?

Apesar dessas críticas pontuais, não há como negar as contribuições práticas da CToE, especialmente nas terapias cognitivas e abordagens educativas (como compartilho, de maneira profunda, no meu novo livro "O Arquiteto das Emoções"). Quando trabalhamos a rotulação emocional com pacientes, ou mesmo em treinamentos com gestores e professores, fica claro que dar nome e sentido ao que sentimos aumenta o sentimento de controle e agência sobre a própria experiência.

No próprio Instituto UniNAS, na minha atuação terapêutica e educativa, fazemos uso desses conceitos ao propor autoconhecimento emocional como ferramenta de autonomia. O modelo de Barrett pode, sim, ser potente para:

  • Ajudar na compreensão e modificação de emoções atuais.
  • Promover diálogo sobre diferenças individuais e culturais nos estados afetivos.
  • Ensinar, especialmente crianças e adolescentes, a ampliar vocabulário emocional através de práticas simbólicas e sociais.

Pessoalmente, vejo que os maiores ganhos do construtivismo estão no manejo subjetivo de emoções, não na explicação biológica como única causa. Isso não reduz a importância de mecanismos antigos e automáticos, como aqueles descritos por Panksepp.

Natureza e cultura não são inimigas, caminham juntas.

Seria possível uma abordagem conciliatória?

Em meus estudos e interações clínicas, prefiro pensar que há espaço para integração das diferentes perspectivas. A metáfora do cérebro evolutivo em camadas (tal qual defendida por modelos mais recentes que abandonam o Cérebro Triúno, já desacreditado) sugere justamente isso: processos automáticos, básicos e inatos coexistem com camadas mais plásticas, simbólicas e sensíveis ao contexto social e cultural.

É possível, e talvez o caminho mais próximo dos dados, aceitar que há circuitos emocionais básicos compartilhados amplamente em mamíferos, mas que as experiências, a rotulação, a intensidade e o significado mudem de acordo com nossa imersão no ambiente cultural e o repertório disponível de categorias, palavras e símbolos. Assim, o olhar se amplia sem negar a complexidade do fenômeno.

Esse debate é, em sua maior parte, uma disputa sobre semântica, diferenças e justaposições entre afeto, sensação, emoção e sentimento. O risco está em cristalizar posições extremas, desprezando a riqueza dos dados empíricos, como defendo em outros ensaios e artigos.

Consequências práticas e históricas: o perigo dos modismos científicos

Quando olho para a história das neurociências e psicologia evolutiva, percebo claramente como teorias antes tidas como absolutas rapidamente caem em desuso diante de novos achados. Foi assim com a ideia do “Cérebro Triúno/Trino”, popularizada décadas atrás e hoje superada por correntes mais integradoras e redes distribuídas (porém, infelizmente, essa ideia ainda é muito vendida por ai, especialmente em cursos de neuromarketing ou neuroliderança).

O perigo, aqui, é fazer da CToE uma “nova moda neurocientífica” que empobrece o debate e derruba pontes com disciplinas como etologia ou psicologia da saúde mental. O mesmo vale para propostas empíricas mostradas no meu blog, onde debato estratégias de regulação emocional que dialogam justamente com essa integração.

Penso que o papel do Instituto UniNAS, como espaço de ensino, pesquisa e clínica, é justamente fomentar esse pensamento crítico, o diálogo interdisciplinar e a abertura à revisão de teorias conforme o avanço dos dados. Só assim evitamos cair em reducionismos.

A ciência das emoções está cheia de zonas cinzentas.

Conclusão

Refletir sobre a Teoria das Emoções Construídas é um convite à humildade científica. Confesso que, para mim, algumas posturas radicais do construtivismo soam apressadas, e os limites metodológicos da teoria sugerem cuidado antes de abraçá-la como verdade única (e isso vale para qualquer teoria). Ao mesmo tempo, seu valor prático em promover autoconhecimento e manejo emocional merece respeito, principalmente na clínica e na educação.

A melhor síntese, acredito, está em articular vieses biológicos e repertórios culturais num mesmo corpo teórico, aprendendo com as perguntas difíceis, mantendo-se disposto a mudar e adaptando o conhecimento à pluralidade de cérebros, línguas e contextos, humanos ou animais.

Se você quer aprofundar sua compreensão teórica e prática sobre emoções, autoconhecimento e saúde mental, novamente, convido a conhecer nossa pós-graduação em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos, do Instituto UniNAS, em parceria com a Faculdade Anhanguera. Afinal, estudar as emoções é pesquisar aquilo que nos faz humanos. E todos, de algum modo, sentem.

Perguntas frequentes sobre a Teoria das Emoções Construídas

O que é a Teoria das Emoções Construídas?

A Teoria das Emoções Construídas (CToE) afirma que emoções não são universais ou inatas. Segundo Lisa Feldman Barrett, emoções só surgem quando interpretamos sensações corporais básicas (afeto) por meio das lentes de linguagem, experiências passadas e cultura, dando nomes e sentidos a essas experiências.

Quais são as principais críticas à teoria?

Por alguns pesquisadores, as críticas principais dizem respeito à exclusão de emoções em animais, por esses não terem linguagem complexa, e às fragilidades metodológicas dos dados usados para embasar a teoria.

Quais os limites dessa abordagem emocional?

O maior limite está em negar a existência de emoções inatas ou automáticas, que aparecem em outras espécies e até em recém-nascidos humanos. De novo, essas limitações e críticas foram respondidas no livro "The Psychological Construction of Emotion"

Existem alternativas para essa teoria?

Sim. Pesquisadores como Jaak Panksepp defendem que há emoções básicas, automáticas, com circuitos cerebrais específicos já presentes em mamíferos. Barbara Tversky traz explicações sobre formas não-verbais e pré-linguísticas de vivenciar emoções. Outras linhas propõem uma convivência entre repertórios biológicos e construções sociais, sugerindo que ambos contribuem para o mundo emocional.

Por que essa teoria é tão discutida?

Porque questiona ideias tradicionais, cutuca pressupostos filosóficos e mexe em práticas clínicas e éticas muito sensíveis no campo das emoções. Ao propor que nossa vida emocional depende de categorias aprendidas socialmente, a teoria obriga a repensar o que é ser humano, o que é ser animal e como se dão as relações entre cérebro, linguagem e cultura.

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Professor, Pesquisador e Terapeuta Bech.

Neurociências Afetiva e Social.

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Matheus Milan

Sobre o Autor

Matheus Milan

Fundador e Coordenador do primeiro clube de conteúdos e cursos das neurociências afetiva e social, o Clube NAS. Diretor do Centro Educacional UniNAS, instituição de ensino superior que, tendo como base as neurociências afetiva e social, oferece cursos de extensão e de pós-graduação com chancela do MEC.

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