Três gerações sentadas em sala vendo notícias conflitantes em diferentes telas

A cada dia que passa, vejo a desinformação como um risco real para a saúde mental, para a convivência e até para escolhas de cuidado com o próprio corpo. Infelizmente, nas redes sociais, ela corre rápido, toca emoções e entra no dia a dia sem pedir licença. Entre jovens, isso pode ser ainda mais grave, porque o desejo de pertencimento social costuma falar alto. Entre idosos, a busca por segurança e confiança também pesa. O cérebro, em cada fase da vida, responde de um jeito.

A desinformação não afeta só o que uma pessoa pensa, mas também o que ela sente, compartilha e faz.

Você (talvez) não concorda, mas posso afirmar que acreditar em algo falso raramente depende apenas de falta de inteligência. O processo é mais humano e mais complexo. Ele envolve memória, emoção, ideologia, traços de personalidade, experiências de vida e o modo como a informação chega até nós.

Por que a idade muda o risco?

Crianças, adolescentes, adultos e idosos usam pistas diferentes para julgar o mundo. Isso altera a forma como recebem notícias, vídeos e mensagens. Eu gosto de pensar numa cena simples. Uma criança ouve algo de um adulto e tende a confiar. Um adolescente vê um conteúdo que muitos amigos curtiram e sente pressão para entrar no grupo. Um idoso recebe uma mensagem enviada por alguém conhecido e pode tomar a familiaridade como sinal de verdade.

Lembre-se: cada faixa etária tem vulnerabilidades próprias, porque cada fase da vida traz prioridades sociais e cognitivas diferentes.

De forma geral, eu resumiria assim:

  • Crianças confiam mais no que lhes é dito e ainda estão aprendendo a avaliar fontes;
  • Adolescentes buscam aceitação, identidade e sinais de pertencimento;
  • Adultos filtram mais pelo contexto, mas seguem expostos à repetição e à polarização;
  • Idosos podem recorrer mais à experiência de vida, mas também à familiaridade e à confiança em contatos próximos;

Os algoritmos ampliam esse quadro. Eles entregam conteúdo que prende atenção e reforça conexão social. Isso faz com que jovens, que querem fazer parte/pertencer, e pessoas mais velhas, que desejam manter laços e segurança social, vejam mais material duvidoso. O resultado é simples e duro.

Quanto mais exposição, maior o risco.

O cérebro não guarda tudo do mesmo jeito

Um ponto que eu considero muito útil vem da Teoria do Traço Difuso ("fuzzy-trace theory", em inglês). Essa proposta diferencia dois registros da informação: os fatos literais ("verbatim"), guarda os detalhes precisos, e o sentido geral ("gist") - o “grosso” da mensagem, significado e a ideia principal. Na prática, muitas pessoas não lembram dos detalhes exatos de uma notícia ("verbatim"), mas guardam a impressão central ("gist"). E é essa impressão que costuma orientar a decisão de acreditar ou compartilhar.

Em geral, nós decidimos mais pelo sentido central do que pelos detalhes literais.

Isso ajuda a entender por que o conhecimento de conteúdo e a experiência de vida, embora ajudem a testar a verossimilhança de uma mensagem, nem sempre barram a notícia falsa. Uma pessoa pode saber bastante sobre saúde, política ou educação e, mesmo assim, aceitar um conteúdo enganoso se o sentido central parecer plausível dentro de suas expectativas.

Esse tema conversa muito com o que escrevi no texto sobre cognição social e decisões. Nós não avaliamos mensagens de forma fria. Nós interpretamos intenções, contexto e coerência social. Às vezes, o cérebro busca sentido antes de buscar prova.

Emoções, personalidade e ideologia

É comum ouvir muita gente dizer que basta “controlar a emoção” para não cair em fake news. Não é tão simples. Regular emoções pode ajudar em algumas situações, mas não garante proteção. Isso porque as emoções surgem quando interpretamos o sentido geral da mensagem. Se o conteúdo desperta medo, raiva, alívio ou indignação, ele pode parecer mais verdadeiro.

A emoção não é um detalhe lateral. Ela participa da construção da percepção. Em um texto sobre emoções e percepção, fica claro como o afeto muda a forma como algo parece real.

Além disso, personalidade e histórico de vida interferem bastante. Pessoas mais desconfiadas, especialmente quando viveram experiências negativas na infância, podem processar informações de modo mais defensivo. Isso tanto pode gerar resistência a conteúdos falsos quanto abrir espaço para suspeitas exageradas. A confiança nas fontes também muda tudo. Quando a mensagem vem de alguém próximo, o filtro muitas vezes baixa.

A ideologia entra como um ajuste de plausibilidade. Ela molda o que parece coerente com a visão de mundo da pessoa. Assim, a notícia é lida não só pelo que diz, mas pelo que confirma.

Repetição, familiaridade e pensamento analítico

Um dos efeitos mais fortes que eu encontro nas pesquisas é o da "verdade ilusória". Repetir uma informação, mesmo falsa, aumenta a sensação de verdade. Isso acontece porque a exposição traz familiaridade. E familiaridade pode ser confundida com validade. Esse efeito aparece em adultos e em crianças.

Conhecimento ajuda, mas não impede sozinho o efeito "verdade ilusória" gerado pela repetição.

Com crianças, a situação começa cedo. Nos primeiros anos, elas tendem a confiar no que escutam. Depois, aos poucos, passam a observar sinais como quem falou, de onde veio e se aquilo combina com outras informações. Mesmo assim, a repetição pesa. Se um conteúdo aparece muitas vezes, ele parece menos estranho.

Entre adolescentes e adultos, o pensamento analítico costuma oferecer uma proteção maior do que a simples tentativa de “sentir menos”. Parar, comparar, buscar incoerências e perguntar “isso faz sentido de verdade?” reduz o impulso de compartilhar. Ainda assim, o ambiente digital trabalha contra esse freio, porque recompensa velocidade, reação e confirmação social.

O que pode reduzir o problema?

Algumas intervenções comportamentais mostram efeito. Uma delas é simples (mas desafiadora na prática): pedir que a pessoa preste mais atenção à veracidade antes de compartilhar. Em vários contextos, isso diminui a circulação de desinformação. Eu acho essa saída útil porque ela mexe no momento da decisão, não apenas no conteúdo em si.

Mas há um detalhe. Em certos casos, esse mesmo tipo de alerta pode aumentar o ceticismo também em relação a conteúdos verdadeiros. Ou seja, a pessoa passa a duvidar de tudo. Isso não resolve. Só troca um erro por outro.

Entre medidas que costumam ajudar, eu destacaria:

  • Reduzir o impulso de compartilhar no calor da emoção (de novo, desafiadora na prática);
  • Ensinar crianças e adolescentes a observar fonte, contexto e intenção;
  • Estimular pensamento analítico sem transformar tudo em paranoia;
  • Conversar sobre ideologia, vieses e confiança nas redes (aqui, muitas pessoas estão "sem tempo");

Também vale rever hábitos digitais. Em muitos casos, diminuir a exposição contínua ao fluxo de conteúdos já muda bastante o estado mental. Esse debate aparece bem em reflexões sobre detox digital e ciência das redes sociais.

O que ainda falta entender

Eu diria que ainda faltam estudos do cotidiano real. Nós já sabemos que cognição, metacognição, emoção, personalidade, repetição, confiança na fonte e polarização ideológica interferem na aceitação de notícias falsas. Só que a mistura disso tudo, na vida comum, ainda pede mais observação. Nem toda pessoa jovem reage igual. Nem todo idoso compartilha pelos mesmos motivos.

Entender como essas variáveis se combinam ao longo da vida ajuda a criar formas mais humanas de reduzir os danos da desinformação.

Quando juntamos esses pontos, a conclusão é clara. Desinformação não é apenas erro de informação. É um fenômeno social e cerebral. Afeta crianças pela confiança natural, jovens pela busca de pertencimento e idosos pela familiaridade e pela segurança relacional. Se você quer aprofundar esse olhar em um trabalho voltado ao entendimento das emoções, do comportamento e da autonomia pessoal, vale conhecer melhor os cursos e as aulas disponíveis no Clube NAS.

Perguntas frequentes

O que é desinformação?

Basicamente, desinformação é o conteúdo falso, distorcido ou fora de contexto que circula como se fosse verdadeiro. Ela pode ser criada com intenção de enganar ou pode ser compartilhada por pessoas que acreditam nela sem checar antes.

Como a desinformação afeta crianças?

Crianças tendem a confiar mais no que escutam e no que veem, porque ainda estão formando critérios para avaliar fontes. A repetição também pesa bastante. Com o tempo, elas aprendem a observar sinais de credibilidade, mas precisam de orientação de adultos.

Desinformação prejudica mais idosos ou jovens?

Os dois grupos podem ser muito afetados, mas por motivos diferentes. Jovens costumam ficar mais expostos pela busca de aceitação social e pelo uso intenso das redes. Idosos podem ser mais sensíveis à familiaridade da mensagem e à confiança em pessoas conhecidas. O risco depende do contexto de vida e do modo de uso das plataformas.

Como proteger crianças da desinformação?

Eu recomendo conversar sobre o que elas assistem, ensinar a perguntar quem falou, por que falou e se aquilo aparece em outras fontes confiáveis. Também ajuda acompanhar o uso de telas, explicar que nem tudo online é verdadeiro e treinar pausas antes de acreditar ou repassar algo.

Quais sinais de desinformação no dia a dia?

Alguns sinais comuns são manchetes alarmistas, mensagens que pedem compartilhamento urgente, ausência de contexto, promessas exageradas, contradições internas e uso forte de medo ou indignação. Quando o conteúdo parece feito para provocar reação rápida, eu costumo desconfiar mais.

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Professor, Pesquisador e Terapeuta Bech.

Neurociências Afetiva e Social.

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Matheus Milan

Sobre o Autor

Matheus Milan

Fundador e Coordenador do primeiro clube de conteúdos e cursos das neurociências afetiva e social, o Clube NAS. Diretor do Centro Educacional UniNAS, instituição de ensino superior que, tendo como base as neurociências afetiva e social, oferece cursos de extensão e de pós-graduação com chancela do MEC.

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