jovem se sentindo isolado, em solidão

Uma cena cada vez mais comum: uma pessoa jovem sai com amigos, recebe mensagens, participa de grupos e, ainda assim, volta para casa com um vazio difícil de explicar. Parece contradição. Mas não é.

Solidão não é o mesmo que falta de amigos.

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos com 4.812 pessoas, com dados coletados entre 2022 e 2023, ajuda a entender isso. O foco foi medir bem-estar social, como companheirismo, apoio de amigos, quantidade de amigos e sensação de conexão, e também mal-estar social, como solidão e desconexão, em diferentes idades. O resultado chama atenção: jovens adultos, sobretudo entre 18 e 25 anos, relataram mais solidão do que grupos mais velhos, mesmo quando também diziam ter muitos amigos, apoio e chances de convívio.

Quando leio esse tipo de dado, penso em algo que discutimos muito no Clube NAS: a vida emocional não segue lógica simples. Eu posso estar cercado e, ainda assim, não me sentir seguro, visto ou estável na relação.

O paradoxo da juventude conectada

O estudo identificou quatro padrões de saúde social. O maior grupo, com 61% das pessoas, foi chamado de ambivalente. Esse grupo reunia pessoas com bons sinais de bem-estar social, mas também com níveis moderados de mal-estar social. Em outras palavras, tinham conexão e solidão ao mesmo tempo.

Ter companhia não garante intimidade.

Jovens e mulheres apareciam mais nesse grupo ambivalente. Também eram pessoas com mais escolaridade e com mais mudanças recentes na vida. Falo de situações como:

  • Mudança de cidade;
  • Início de trabalho;
  • Entrada ou saída de relacionamentos;
  • Mudanças de curso, rotina ou moradia;

Essas transições podem ser boas. Muitas vezes são desejadas. Só que elas rompem ritmos, afastam referências e enfraquecem a sensação de permanência. Isso afeta o que alguns autores chamam de segurança ontológica, aquela percepção interna de continuidade, previsibilidade e base emocional.

Muitos jovens não sofrem por ausência social, mas por instabilidade social.

O cérebro não responde apenas ao número de contatos. Ele também reage à regularidade, à confiança e à expectativa de que um vínculo vai continuar existindo amanhã.

Por que a solidão cresce entre 18 e 25 anos?

Entre 18 e 25 anos, a vida costuma mudar rápido. Formatura, estágio, trabalho, talvez uma nova cidade, novas amizades, namoro, término, redes sociais, pressão de futuro. Tudo ao mesmo tempo. Por fora, isso parece vida cheia. Por dentro, pode virar desgaste.

No grupo com maior bem-estar e menor solidão, predominavam adultos mais velhos, com menos mudanças recentes e rotinas mais estáveis. Esse contraste diz muito. A estabilidade social protege. Não resolve tudo, mas reduz a sensação de flutuação afetiva.

Nos Estados Unidos, essas tendências também se ligam a mudanças sociais maiores, como aumento de pessoas solteiras e ampliação das opções de estilo de vida. Eu vejo um lado bom nisso: há mais liberdade para escolher. Mas também existe um custo psíquico. Quanto mais caminhos possíveis, mais incerteza sobre onde ficar, com quem contar e como construir continuidade.

Para quem gosta de refletir sobre como o social molda mente e decisões, vale ler meu texto sobre cognição social e sua influência nas decisões. Esse tema ajuda a entender por que a presença dos outros afeta tanto a forma como cada jovem interpreta sua própria vida.

Amigos existem, mas o tempo não basta

Outro ponto do estudo me parece muito humano. Mesmo com contatos variados, muitos jovens relatam insatisfação com o tempo disponível para os amigos. A amizade não depende só de existir. Ela depende de tempo repetido, presença confiável e espaço para vulnerabilidade.

Solidão pode surgir quando há contato, mas falta continuidade.

Além disso, muitos jovens têm expectativas altas sobre conexão. Esperam relações profundas, frequentes, abertas e emocionalmente afinadas. Quando a experiência real fica abaixo desse ideal, a frustração aumenta. Não porque a amizade seja falsa, mas porque ela não alcança o nível esperado.

Isso ajuda a entender por que mulheres relataram mais ambivalência no estudo. Uma hipótese é que elas carreguem expectativas maiores sobre amizade, intimidade e troca emocional. Se a relação não oferece isso com consistência, o vazio aparece mesmo em redes sociais ativas. Isso se aproxima com as discussões que tenho sobre as emoções construídas e mudança de hábitos, pois a forma como eu interpreto um encontro, uma demora na resposta ou um afastamento também depende da minha história, do meu corpo e dos meus padrões aprendidos.

Quem quiser ampliar essa visão pode ler sobre a influência das emoções na percepção e no realismo afetivo. Esse tipo de leitura ajuda a perceber que sentir rejeição nem sempre significa rejeição real, mas sempre revela algo do estado emocional vivido.

Os quatro perfis vistos na pesquisa

Embora o grupo ambivalente tenha sido o maior, a pesquisa mostrou quatro padrões. Eu resumiria assim:

  • Um grupo com alto bem-estar social e baixa solidão, mais comum entre adultos mais velhos e com vida mais estável;
  • Um grupo ambivalente, com boas conexões e solidão moderada, mais frequente entre jovens e mulheres;
  • Grupos intermediários com combinações mistas de apoio e desconexão;
  • Um grupo com pior saúde social, com menos amigos, mais estresse e mais dificuldade para criar ou manter vínculos;

No grupo ambivalente, o estresse era menor do que no grupo com menor bem-estar, mas maior do que no grupo mais estável socialmente. Isso mostra que a ambivalência não é o pior cenário, mas também está longe de ser leve.

Já no grupo com pior saúde social, apareciam mais pessoas com menor escolaridade, mais estresse, menos amigos e mais dificuldade para fazer novas amizades ou sustentar relações. Aqui, a solidão tende a vir junto com isolamento mais concreto e menos recursos de apoio.

Em discussões sobre vínculo e expectativa, eu também recomendo a leitura sobre estilo de apego e futuros imaginados. Esse assunto ajuda a entender por que algumas pessoas vivem cada mudança como perda de base, enquanto outras toleram melhor as transições.

O que esse estudo ainda não responde

É muito importante tratar esses dados com cuidado. Essa pesquisa foi transversal, então ela mostra um retrato de um momento, não causa e efeito. Não dá para afirmar, por exemplo, que as mudanças de vida geram solidão em todos os casos. Dá para dizer que elas caminham juntas com frequência.

Também houve sub-representação de adultos mais velhos, e o desenho do estudo não permite comparar essa juventude com gerações anteriores. Isso limita conclusões muito amplas.

Outro ponto relevante é a pandemia. As mudanças sociais provocadas por esse período podem ter aumentado a ambivalência sobre saúde social em várias faixas etárias. Muita gente reaprendeu a conviver, rever rotinas e lidar com vínculos menos estáveis.

Como eu interpreto esses achados

Na minha visão, o estudo reforça algo simples e profundo. A juventude atual vive mais possibilidades, mas também mais suspensão. Carreira, estudo e relacionamentos estão menos previsíveis. Isso amplia encontros, mas reduz permanência.

A dor da solidão cresce quando a vida perde rotina, intimidade e senso de continuidade.

Por isso, eu não trato a solidão jovem como fraqueza ou exagero. Muitas vezes, ela é uma resposta humana a um ambiente social fragmentado. Não basta perguntar quantos amigos alguém tem. Eu prefiro perguntar: com quem essa pessoa pode contar de forma estável? Em que rotina esse vínculo vive? Onde há segurança emocional?

Quem quiser seguir nessa linha pode assistir mais vídeos no meu canal no Youtube e, se preferir, também refletir sobre como gerenciar emoções e transformar a realidade percebida. Para mim, esse é um caminho honesto para sair da culpa e começar a construir relações mais consistentes.

Em resumo, segundo os autores, o tempo prolongado de instabilidade, tão comum na juventude de hoje nos Estados Unidos, faz com que mais jovens vivam conexões reais e solidão ao mesmo tempo. Assim, fica o convite, se esse tema toca sua experiência, você precisa se aprofundar mais sobre a ciência das emoções e o comportamento humano, dentro da nossa pós-graduação em Neurociência Afetiva e Psicologia dos Hábitos, do Instituto UniNAS.

Perguntas frequentes

O que é solidão entre jovens?

Solidão entre jovens é a sensação de desconexão emocional, mesmo quando há convívio social. Ela pode surgir quando faltam intimidade, constância, segurança e tempo de qualidade nas relações.

Por que sinto solidão com amigos?

Você pode sentir solidão com amigos quando existe presença social, mas falta profundidade, previsibilidade ou abertura emocional. Expectativas altas sobre amizade e rotinas instáveis também aumentam essa sensação.

Como lidar com solidão na juventude?

Eu sugiro começar por observar quais vínculos trazem segurança real, criar momentos regulares de contato, reduzir comparações e nomear o que está faltando na relação. Em alguns casos, terapia ajuda a entender padrões emocionais e formas mais saudáveis de conexão.

Quais sinais de solidão em jovens?

Alguns sinais são sensação de vazio após encontros sociais, frustração frequente com amizades, percepção de não ser compreendido, dificuldade de manter proximidade e aumento de estresse mesmo com vida social ativa.

Quando buscar ajuda para solidão?

Vale buscar ajuda quando a solidão vira sofrimento constante, afeta sono, estudos, trabalho, autoestima ou faz a pessoa se afastar ainda mais. Nesses casos, apoio profissional (como na clinica Hoplytas) pode oferecer compreensão, direção e novas formas de vínculo.

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Professor, Pesquisador e Terapeuta Bech.

Neurociências Afetiva e Social.

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Matheus Milan

Sobre o Autor

Matheus Milan

Fundador e Coordenador do primeiro clube de conteúdos e cursos das neurociências afetiva e social, o Clube NAS. Diretor do Centro Educacional UniNAS, instituição de ensino superior que, tendo como base as neurociências afetiva e social, oferece cursos de extensão e de pós-graduação com chancela do MEC.

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